quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Sophia ... faz hoje 100 anos






MAR SONORO


Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim,
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho,
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.


                                         Sophia de Mello Breyner Andresen | "Dia do mar", pág. 14 | Edições Ática, 1974

terça-feira, 8 de outubro de 2019

Kafka e as eleições




Imaginem um casal que sabe vir a estar deslocado da sua residência habitual à data das eleições.
 Decide aproveitar a possibilidade que a lei lhe dá de “votar em mobilidade”. Para tal e, dentro do prazo requerido enviou para o MAI uma carta com aviso de recepção. Nela foram introduzidos dois impressos devidamente preenchidos e assinados, um para cada um dos cônjuges. Uma semana antes da votação geral e, ainda de acordo com a lei, o dito casal deslocou-se à capital do distrito onde se encontravam para exercerem o seu direito de voto.
Ao apresentarem-se junto da mesa da assembleia de voto depararam-se com uma situação, no mínimo, inusitada. O marido votou, quanto à companheira, o seu nome não constava dos cadernos eleitorais. Com a assistência de uma funcionária da Câmara Municipal foi feita imediatamente uma interpelação ao MAI sobre o sucedido. Rapidamente o MAI se pôs em contacto telefónico com a queixosa. Depois de algum tempo acabou por esclarecer que de facto tinham sido enviados dois boletins de inscrição, mas que alguém (algum funcionário) os tinha agrafado e só tinha dado despacho ao primeiro. Perante a revolta da lesada a funcionária do MAI apressou-se “a lamentar o sucedido e apresentar as suas desculpas assim com as do Secretário de Estado”. Apesar de tudo, dizia a funcionária a “reclamante” poderia, de acordo com a lei, votar no dia das eleições (dia 6) no local da sua residência habitual. Como a inscrição para votar em mobilidade fora feita pelo facto de, no dia da votação normal a queixosa não se poder deslocar ao local da sua residência habitual é claro que não votou.
Por incompetência e burocracia dos serviços uma eleitora foi impedida de votar!!! 
A lesada fui eu e, pela primeira vez não votei.
Não digam que não é uma situação kafkiana!!!

domingo, 22 de setembro de 2019

À primeira vista




Hoje, ao lado da minha mesa, no café do Supermercado sentou-se uma rapariga de cerca de vinte anos de idade. Era empregada da casa e estava a tomar o pequeno almoço. No tabuleiro via-se um galão, um croissant com fiambre e um russo.

 Um daqueles russos enormes e saborosos que são típicos desta zona do Algarve.
Enquanto a jovem foi comendo eu embrenhei-me na leitura do jornal. Mas eis senão quando, fixo-me novamente na moça e o que vejo. Começava a comer o russo deliciadamente, mas de uma forma perfeitamente inesperada. Retirou a camada superior do folhado e comeu-a para depois continuar e concluir com a camada inferior repleta de creme.
Enfim há gostos para tudo e modus operandi também.

domingo, 23 de junho de 2019

Nem tudo estará perdido





Insólito… ou talvez não

Ontem, como de costume fomos a Lagos às compras. Geralmente tomamos o pequeno-almoço numa pastelaria (foto) no Bairro da Abrótea. Até aqui nada de estranho. Só que ontem enquanto esperávamos pelo repasto apercebi-me de um caso “anómalo”. Na mesa ao lado da minha estava um homem a tomar café e a ler um livro. Achei estranho que tivesse sobrevivido à ditadura do telemóvel que assola a nossa sociedade nos vários locais públicos e privados. Enquanto deglutia as vitualhas da breve refeição matinal olhei para o balcão e não é que nesse local se encontrava um jovem lendo concentradamente o que me pareceu um romance de muitas folhas.
Estranha ou melhor optima coincidência. No mesmo dia encontrar duas pessoas de idades diferentes interessadas na leitura é obra. Mas as coincidências não se ficaram por aqui. Mais tarde um amigo meu contou-me que estivera, de manhã em Lagos onde fora comprar umas alfaces para plantar. Antes desse momento tinha ido a uma livraria e comprara um livro que transportou debaixo do braço. Quando efectuava a compra da verde salada, o vendedor tendo observado o livro debaixo do braço perguntou-lhe o que andava a ler e confidenciou-lhe que também gostava de ler.
Será que só podemos tomar estes factos como um mero conjunto de coincidências ou será que nem tudo está perdido?

quinta-feira, 18 de abril de 2019



Tradições Pascais
(no Algarve da minha infância)




O Contrato

Recordo as minhas férias da Páscoa quando era criança. Geralmente ia passa-las a Alvor, no Algarve, terra dos meus pais e avós.
No início da Semana Santa já eu ansiava por fazer o “contrato”. Este contrato geralmente era feito entre o padrinho ou madrinha e os afilhados. Mas no meu caso os contratantes eramos eu e o meu pai.  Com os dedos mínimos entrelaçados dizia-se em voz alta e em coro; “Contrato, contrato que nós faremos, Sábado de Aleluia desmancharemos, Domingo de Páscoa pagaremos”. Depois era só esperar. No Sábado de Aleluia levantava-me cedo e pé, ante pé procurava surpreender o meu pai. Aquele de nós dois dissesse primeiro “Ajoelhe-se e pague”, teria direito às amêndoas. Como sabiam bem estas amêndoas.

terça-feira, 5 de março de 2019


2019


Março (2ªsemana)

AS AMORAS

O meu país sabe as amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.


segunda-feira, 4 de março de 2019

Requiem pela Pastelaria Suíça


Há algum tempo li a notícia de que a Pastelaria Suíça ia fechar. A “Suíça” ia fechar. Fiquei triste, mas com o correr do tempo acabei por esquecer.
Na 2ª feira passada fui colocada frente a essa realidade. Tendo ido tratar duns assuntos a Lisboa, na 2ªfeira de manhã fui, como de costume tomar o café à Baixa. Apanhei o Metro e saí no Rossio.



 Ao sair do Metro deparei-me com uma parede nua e fria, com portas e janelas fechadas, tudo cinzento e deserto à beira de um passeio sem esplanada. Estava à porta da Pastelaria Suíça. Que tristeza, que sensação de perda. Foi a “Suíça “que serviu o copo de água do meu casamento já lá vão quase 50 anos. Durante muitos anos foi um local que eu sempre procurava quando vinha a Lisboa para beber um café ou comer um bolo. Antes da última remodelação, lembro-me das mesas que existiam no seu interior. Da clientela muito peculiar que eu tanto gostava de observar. Depois desapareceram as mesas com as cadeiras e deram lugar àquelas mesas altas e desagradáveis, mas a pastelaria continuava. Até agora que desapareceu completamente. É mais um ícone de Lisboa que desaparece para dar lugar não sei a quê, mas muito provavelmente a novas lojas daquelas internacionais que encontramos tanto aqui em Portugal como em qualquer outro pais, sem originalidade. Sinal dos tempos, não um mau sinal dos tempos.

sábado, 9 de fevereiro de 2019


2019

O Ano de Sophia



FEVEREIRO (1ªsemana)


AS ROSAS

Quando à noite desfolho e trinco as rosas
É como se prendesse entre os meus dentes
Todo o luar das noites transparentes,
Todo o fulgor das tardes luminosas,
O vento bailador das Primaveras,
A doçura amarga dos poentes,
E a exaltação de todas as esperas.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019


2019

O Ano de Sophia




       (Janeiro - última semana)
Paisagem

Passavam pelo ar aves repentinas,
O cheiro da terra era fundo e amargo,
E ao longe as cavalgadas do mar largo
Sacudiam na areia as suas crinas.
Era o céu azul, o campo verde, a terra escura,
Era a carne das árvores elástica e dura,
Eram as gotas de sangue da resina
E as folhas em que a luz se descombina.
Eram os caminhos num ir lento,
Eram as mãos profundas do vento
Era o livre e luminoso chamamento
Da asa dos espaços fugitiva.
Eram os pinheirais onde o céu poisa,
Era o peso e era a cor de cada coisa,
A sua quietude, secretamente viva,
E a sua exalação afirmativa.
Era a verdade e a força do mar largo,
Cuja voz, quando se quebra, sobe,
Era o regresso sem fim e a claridade
Das praias onde a direito o vento corre.
in Poesia, 1944



sexta-feira, 25 de janeiro de 2019


2019

O ANO DE SOPHIA



(Janeiro 4ª semana)


(lembrando Jorge de Sena cujo centenário de nascimento se cumpre também este ano)
Carta(s) a Jorge de Sena
I
Não és navegador mas emigrante
Legítimo português de novecentos
Levaste contigo os teus e levaste
Sonhos fúrias trabalhos e saudade;
Moraste dia por dia a tua ausência
No mais profundo fundo das profundas
Cavernas altas onde o estar se esconde
II
E agora chega a notícia que morreste
E algo se desloca em nossa vida
III
Há muito estavas longe
Mas vinham cartas poemas e notícias
E pensávamos que sempre voltarias
Enquanto amigos teus aqui te esperassem —
E assim às vezes chegavas da terra estrangeira
Não como filho pródigo mas como irmão prudente
E ríamos e falávamos em redor da mesa
E tiniam talheres loiças e vidros
Como se tudo na chegada se alegrasse
Trazias contigo um certo ar de capitão de tempestades
— Grandioso vencedor e tão amargo vencido —
E havia avidez azáfama e pressa
No desejo de suprir anos de distância em horas de conversa
E havia uma veemente emoção em tua grave amizade
E em redor da mesa celebrávamos a festa
Do instante que brilhava entre frutos e rostos
IV
E agora chega a notícia que morreste
A morte vem como nenhuma carta
in Ilha, 1989



sexta-feira, 18 de janeiro de 2019



2019

O ANO DE SOPHIA


No centenário do nascimento de Sophia de Mello Breyner Andresen decidi publicar semanalmente um dos seus poemas como forma de reconhecimento pela poetisa e pela mulher que foi.

JANEIRO (3ªsemana)

UM DIA
Um dia, gastos, voltaremos
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais.

O vento levará os mil cansaços
Dos gestos agitados irreais
E há-de voltar aos nosso membros lassos
A leve rapidez dos animais.

Só então poderemos caminhar
Através do mistério que se embala
No verde dos pinhais na voz do mar
E em nós germinará a sua fala.


terça-feira, 15 de janeiro de 2019


2019

O ANO DE SOPHIA




No centenário do nascimento de Sophia de Mello Breyner Andresen decidi publicar semanalmente um dos seus poemas como forma de reconhecimento pela poetisa e pela mulher que foi.

JANEIRO (2ª semana)

MULHERES À BEIRA-MAR
Confundido os seus cabelos com os cabelos
do vento, têm o corpo feliz de ser tão seu e
tão denso em plena liberdade.

Lançam os braços pela praia fora e a brancura
dos seus pulsos penetra nas espumas.

Passam aves de asas agudas e a curva dos seus
olhos prolonga o interminável rastro no céu
branco.

Com a boca colada ao horizonte aspiram longa-
mente a virgindade de um mundo que nasceu.

O extremo dos seus dedos toca o cimo de
delícia e vertigem onde o ar acaba e começa.

E aos seus ombros cola-se uma alga, feliz de
ser tão verde.





Sophia de Mello Breyner Andresen | "Antologia", pág. 76 | Círculo de Poesia Moraes Editores, 2ª. edição, 1975

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

O ANO DE SOPHIA


2019

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No centenário do nascimento de Sophia de Mello Breyner Andresen decidi publicar semanalmente um dos seus poemas como forma de reconhecimento pela poetisa e pela mulher que foi.

JANEIRO  (1ª semana)


MAR


Mar, metade da minha alma é feita de maresia
Pois é pela mesma inquietação e nostalgia,
Que há no vasto clamor da maré cheia,
Que nunca nenhum bem me satisfez.
E é porque as tuas ondas desfeitas pela areia
Mais fortes se levantam outra vez,
Que após cada queda caminho para a vida,
Por uma nova ilusão entontecida.

E se vou dizendo aos astros o meu mal
É porque também tu revoltado e teatral
Fazes soar a tua dor pelas alturas.
E se antes de tudo odeio e fujo
O que é impuro, profano e sujo,
É só porque as tuas ondas são puras