sexta-feira, 2 de novembro de 2018

O endireita





Uma ida ao endireita


Na véspera do meu passeio a Foz Coa e a Salamanca sofri um pequeno acidente, mas deveras doloroso. À noite na cama estiquei uma das pernas e senti como que alguma coisa a deslocar-se. Não dei demasiada importância e continuei a tentar dormir. Mais tarde fui à casa de banho e foi um drama. Ao levantar-me a dor na perna esquerda era insuportável, quase chorava. Que fazer, a excursão partia às 6 horas da manhã e eu não vislumbrava a menor possibilidade de vir a melhorar a tempo do passeio. Então fui tentando de tudo. Massajei o local com pomada e tentei exercitar a perna andando de um lado para o outro, de uma forma repetitiva como que para habituar a perna ao movimento. Depois lembrei-me que há algum tempo tinha comprado uma bengala articulada, muito leve, própria para viagens. Fui buscá-la e a pouco e pouco foi nascendo uma esperança de poder vir a integrar a excursão.
E assim foi, é claro que à bengala acrescentei a ingestão de comprimido anti-inflamatório e a situação melhorou bastante.
No primeiro dia usei a bengala, mas nos outros dois já não o fiz embora ainda me doesse.
Durante a viagem uma amiga minha, a Isilda disse-me que o melhor era eu ir ao endireita de Alter que ele me punha a perna em ordem. Combinámos que no dia a seguir à chegada a Portalegre ela própria me levaria lá.
Na segunda-feira às 10h e pouco lá estava a Isilda para me conduzir a Alter.
Chegadas ela procurou situar-se e acabou por encontrar a casa. Uma vivenda com as janelas e as portas fechadas. Fiquei no carro e a minha amiga dirigiu-se à porta. Atendeu-a uma mulher já idosa, mas com um ar despachado. Falaram à porta durante algum tempo fazendo-me imaginar que a solução para o meu problema não se encontrava ali. Dirigiram-se as duas ao carro e vim a saber que o Sr. Francisco se encontrava doente. Homem já de muita idade, 94 anos tinha sido operado a um tumor num pé e estava hospitalizado depois de algumas complicações. Entretanto a senhora queixou-se amargamente do companheiro que bebia desde sempre e que a tratava mal. Acabou por nos indicar um sobrinho do Sr. Francisco que morava perto e praticava a mesma arte do tio.
Quando o carro começou a andar a Isilda contou-me que quando a mulher lhe falou da doença do endireita ela Isilda lamentou e disse que pessoas como ele, com a sua arte não deviam morrer. Inesperadamente a mulher retorquiu: Não diga isso menina.
Na altura esta expressão deve ter provocado uma certa hilaridade, mas após as queixas que a mulher fez, deu mais que pensar. Estava ali uma mulher que tinha sido escravizada toda a vida a ponto de desejar a morte do companheiro.
Depois de sairmos dali decidimos não consultar o tal sobrinho e irmos a Fronteira onde também nos tinham recomendado outro endireita.
Em Fronteira não sabíamos muito bem onde nos dirigir e resolver informar-nos perguntando a uma mulher que esta num banco, à espera de transporte. Era uma mulher de povo muito anafada e com uma expressão simpática. Fizemos-lhe então a pergunta: Sabe onde há aqui um endireita? Respondeu que até havia dois e que eram bons. O marido já tinha ido a um deles.  para se tratar “da espinhela caída” e tinha ficado bom. Ela própria já tinha necessitado dos serviços de um endireita, mas tinha ido a um em Cabeço de Vide terra onde morava. Mas este que a pusera bem era um bocado bruto dera-lhe um “estrafegão” que a deixara toda doída. Depois desta dissertação fizemo-la voltar ao nosso assunto e indicar a casa do endireita onde o marido fora.
- Vão por esta 
 rua é uma casa com um “óleo” (pensámos que seria hall) â entrada.
Depois desta aventura achámos por bem perguntar o mesmo a outra pessoa que nos deu as mesmas indicações, mas sem o” óleo”.
Finalmente chegámos à casa do endireita. era uma casa térrea, de facto entrava-se por um hall que se encontrava numa densa penumbra penso que para impressionar. A seguir entrou-se numa pequena sala com um banco estufado corrido frente a uma cadeira que o endireita iria ocupar. Ao lado do banco havia vitrines repletas dos mais variados santos. Na parede em frente viam-se mapas que representavam o corpo humano, ossos e músculos.
 Finalmente fui atendida não levei propriamente uns estrafegões, mas doeu-me. Enquanto procedia ao “tratamento” o endireita falava muito tentava explicar porque razão a sua arte era melhor do que a do médicos, etc.,etc., etc.
Saí de lá sem saber muito bem se teria sido boa ideia.
Já passaram dois dias e de facto estou melhor.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

História de uma aranha e da sua teia


D. Aldonça

Costumo levantar-me cedo. A seguir sento-me na salinha em frente à janela. Ligo o computador e leio as notícias. Ontem mais uma vez cumpri esta rotina. De tempos a tempos vou olhando pela janela. Observo o nascer do sol e a sua subida no horizonte, espio o que se passa no jardim. Foi numa destas minhas olhadelas para o exterior que vi o que me pareceu ser uma imensa teia de aranha. 




Rapidamente dirigi-me ao jardim devidamente “armada” com a máquina fotográfica. Já cá fora deparei-me com uma teia soberba disposta sobre uma piteira exuberante. Sempre gostei das teias de aranha, não sei bem porquê. Talvez pela sua leveza e pelo trabalho de perfeição e paciência que em si encerram.



 Esta era maior do que as que comummente observo. Era e é bonita. E ao centro, em posição descanso lá estava a aranha. Uma aranha de grandes dimensões. Das maiores que já vi em situações destas. Uma aranha assim só podia designar-se de Aldonça, D. Aldonça. Que outro nome podia ter do que de uma dama medieval, forte e com garra (garras). Chegada a este ponto gostava de ter trocado com ela umas ideias, mas não sei falar com aranhas nem as entendo. Gostava de saber se era ma aranha vulgar, conformada com a seu destino de fazer teias onde se irá enredar o seu parceiro. Ou se seria uma aranha anti natura como aquela a que Mia Couto se refere no seu conto “A infinita fiadeira. Esta era uma aranha cuja única preocupação ao fabricar a teia, as teias era a de expressar os seus sentimentos criando obras de arte, à revelia do que os pais aranhões e os amigos defendiam.
Sem conseguir obter respostas para as minhas interrogações resolvi deixa em paz a D. Aldonça e permitir que desfrute do meu jardim. Porém não pude deixar de lhe chamar a atenção que o seu caso era especial e nada de chamar amigos ou amigas. O meu jardim é propriedade privada e ainda não o transformei em AL (alojamento local).

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

O absurdo da notícia






Tive hoje notícia (como diziam os antigos) de um acontecimento aberrante que se verificou em Sagres. O canhão que estava colocado sobranceiro à Praia da Mareta foi, do nada, substituído por um conjunto de pranchas de surf.
Eu sei que não podemos ficar agarrados ao passado, mas ele existiu e é uma referência importante para a nossa via.

Há locais para tudo e provavelmente as arribas mais próximas do mar poderiam ser escolhidas para colocar um símbolo do surf (actividade muito desenvolvida na vila). Agora substituir um pelas outras é sinal de uma total insensibilidade, irresponsabilidade e até de ignorância.