Uma ida ao endireita
Na véspera do meu passeio a Foz Coa e a Salamanca sofri um pequeno acidente, mas deveras doloroso. À noite na cama estiquei uma das pernas e senti como que alguma coisa a deslocar-se. Não dei demasiada importância e continuei a tentar dormir. Mais tarde fui à casa de banho e foi um drama. Ao levantar-me a dor na perna esquerda era insuportável, quase chorava. Que fazer, a excursão partia às 6 horas da manhã e eu não vislumbrava a menor possibilidade de vir a melhorar a tempo do passeio. Então fui tentando de tudo. Massajei o local com pomada e tentei exercitar a perna andando de um lado para o outro, de uma forma repetitiva como que para habituar a perna ao movimento. Depois lembrei-me que há algum tempo tinha comprado uma bengala articulada, muito leve, própria para viagens. Fui buscá-la e a pouco e pouco foi nascendo uma esperança de poder vir a integrar a excursão.
E assim foi, é claro que à bengala acrescentei a ingestão de
comprimido anti-inflamatório e a situação melhorou bastante.
No primeiro dia usei a bengala, mas nos outros dois já não o
fiz embora ainda me doesse.
Durante a viagem uma amiga minha, a Isilda disse-me que o
melhor era eu ir ao endireita de Alter que ele me punha a perna em ordem.
Combinámos que no dia a seguir à chegada a Portalegre ela própria me levaria
lá.
Na segunda-feira às 10h e pouco lá estava a Isilda para me
conduzir a Alter.
Chegadas ela procurou situar-se e acabou por encontrar a
casa. Uma vivenda com as janelas e as portas fechadas. Fiquei no carro e a
minha amiga dirigiu-se à porta. Atendeu-a uma mulher já idosa, mas com um ar
despachado. Falaram à porta durante algum tempo fazendo-me imaginar que a
solução para o meu problema não se encontrava ali. Dirigiram-se as duas ao
carro e vim a saber que o Sr. Francisco se encontrava doente. Homem já de muita
idade, 94 anos tinha sido operado a um tumor num pé e estava hospitalizado
depois de algumas complicações. Entretanto a senhora queixou-se amargamente do
companheiro que bebia desde sempre e que a tratava mal. Acabou por nos indicar
um sobrinho do Sr. Francisco que morava perto e praticava a mesma arte do tio.
Quando o carro começou a andar a Isilda contou-me que quando
a mulher lhe falou da doença do endireita ela Isilda lamentou e disse que
pessoas como ele, com a sua arte não deviam morrer. Inesperadamente a mulher
retorquiu: Não diga isso menina.
Na altura esta expressão deve ter provocado uma certa
hilaridade, mas após as queixas que a mulher fez, deu mais que pensar. Estava
ali uma mulher que tinha sido escravizada toda a vida a ponto de desejar a
morte do companheiro.
Depois de sairmos dali decidimos não consultar o tal
sobrinho e irmos a Fronteira onde também nos tinham recomendado outro
endireita.
Em Fronteira não sabíamos muito bem onde nos dirigir e
resolver informar-nos perguntando a uma mulher que esta num banco, à espera de
transporte. Era uma mulher de povo muito anafada e com uma expressão simpática.
Fizemos-lhe então a pergunta: Sabe onde há aqui um endireita? Respondeu que até
havia dois e que eram bons. O marido já tinha ido a um deles. para se tratar “da espinhela caída” e tinha
ficado bom. Ela própria já tinha necessitado dos serviços de um endireita, mas
tinha ido a um em Cabeço de Vide terra onde morava. Mas este que a pusera bem era
um bocado bruto dera-lhe um “estrafegão” que a deixara toda doída. Depois desta
dissertação fizemo-la voltar ao nosso assunto e indicar a casa do endireita
onde o marido fora.
- Vão por esta
rua é uma casa com um “óleo” (pensámos que
seria hall) â entrada.
Depois desta aventura achámos por bem perguntar o mesmo a
outra pessoa que nos deu as mesmas indicações, mas sem o” óleo”.
Finalmente chegámos à casa do endireita. era uma casa
térrea, de facto entrava-se por um hall que se encontrava numa densa penumbra
penso que para impressionar. A seguir entrou-se numa pequena sala com um banco
estufado corrido frente a uma cadeira que o endireita iria ocupar. Ao lado do
banco havia vitrines repletas dos mais variados santos. Na parede em frente
viam-se mapas que representavam o corpo humano, ossos e músculos.
Finalmente fui
atendida não levei propriamente uns estrafegões, mas doeu-me. Enquanto procedia
ao “tratamento” o endireita falava muito tentava explicar porque razão a sua
arte era melhor do que a do médicos, etc.,etc., etc.
Saí de lá sem saber muito bem se teria sido boa ideia.
Já passaram dois dias e de facto estou melhor.

