A Flor do Frangipani~
Os meus vizinhos têm um jardim muito interessante. Flores
variadas e coloridas cujos nomes desconheço, mas que me deliciam o olhar.
Um destes dias entrei no jardim a pretexto de fotografar as
flores mais de perto. Foi-me oferecida uma
verdadeira lição de tratamento e, especialmente de amor pelas plantas.
Após a sessão fotográfica, quando já me preparava para sair
eis que a minha amiga me deteve junto de uma planta com longas folhas e duas
flores, metida num vaso grande. Continuando o seu papel de guia explicativa
deste “tour turístico “a minha amiga disse-me: - Estas são as flores do
Frangipani. Fiquei espantada, a flor do Frangipani! Podia agora vê-la depois de
tê-la imaginado há já alguns anos. Na Biblioteca da minha escola, entre outros
livros de Mia Couto havia um que se chamava “A Varanda do Frangipani”.
Esta descoberta inesperada levou-me à releitura do livro.
Recordava-me que o Frangipani do livro era uma planta exuberante de inúmeras
folhas que cobriam a varanda quase na totalidade.
“A árvore do frangipani ocupa uma
varanda de uma fortaleza colonial”
Pag.9
A varanda do Frangipani surge no livro como um lugar
fundamental para a acção é onde tudo ou quase tudo acontece.
Tudo sempre se passou aqui, nesta
varanda, por baixo desta árvore, a árvore do frangipani. Minha vida se embebeu
do perfume de suas flores brancas, de coração amarelo. Agora não cheira a nada,
agora não é tempo das flores. O senhor é negro, inspector. Não pode entender como sempre amei essas árvores. É que
aqui, na vossa terra, não há outras árvores que fiquem sem folhas. Só esta fica
despida, faz conta está para chegar um Inverno. Quando vim para África,
deixei de sentir o Outono. Era como se o tempo não andasse, como se fosse
sempre a mesma estação. Só o frangipani me devolvia
esse sentimento do passar do tempo. Não que eu hoje precise de sentir
nenhuma passagem dos dias. Mas o perfume desta varanda me cura nostalgias dos
tempos que vivi em Moçambique.
pag.28
Ao menos a árvore, dizia ele, tem alma
eterna: a própria terra. A gente toca o tronco e sente o sangue da terra
circulando em nossas íntimas veias.
Pag.40
Assim termina a minha evocação da arvore do Frangipani que
estava bem longe de alguma vez conhecer.

