sexta-feira, 29 de setembro de 2017




O Café Alentejano




Hoje fui tomar a “bica” ao Café Alentejano em Portalegre. O café estava quase cheio, não sei se por ser princípio de Outono, ou se por ainda cheirar a Verão.

Das últimas vezes que por aqui estive (no princípio de Primavera) o aspecto era desolador, quase não havia ninguém. Hoje parece ter voltado ao seu natural, bem composto de pessoas de idades e condições variadas. Ouve-se o brua das pessoas que falam sem estridências. É de assinalar que não há televisão.

Este café é um ex-libris da cidade. Fica situado nos baixos de um antigo solar na parte antiga (1).



A estrutura do café mantém-se, mas está cada vez mais degradada. É penas que os candidatos a autarcas que neste momento fazem um ruído ensurdecedor por toda a cidade apregoando as suas futuras obras não se lembrem deste café. A conservação deste espaço, de acordo com a traça original devia ser também uma das suas prioridades.

Se não se lhe acudir rapidamente, tudo isto vai desaparecer dando lugar a uma qualquer cadeia de fast food.



(1)

O café Alentejano teve a sua inauguração em Maio de 1936. Foi instalado no piso inferior do largo terraço de um antigo solar portalegrense, ao tempo propriedade do abastado lavrador (agrário) José Elias Martins. A casa possui um conjunto de janelas, uma das quais é considerada pelos especialistas como das mais belas peças manuelinas nacionais, ali implantada quando era residência de D. Nuno de Sousa, por voltas do ano de 1538. O solar passaria ainda pela posse dos condes de Vila Real.

O traço original do novo café foi da responsabilidade do conceituado pintor portalegrense Benvindo Ceia, ainda que tivesse sofrido algumas alterações. O seu mobiliário, ainda hoje existente, revela um estilo da época que resistiu a todas as modernidades.

Localizado no topo Sul da Rua “Direita”, perto de vários estabelecimentos de ensino, de bancos e também da Câmara Municipal, o café ganhou facilmente considerável afluência. Dispunha de uma pequena sala autónoma para refeições ou petiscos, bilhar, oferecendo ainda um compartimento reservado para jogos de salão, cartas, dominó, etc.

Em Março de 1942, reabriu após um curto encerramento para obras de renovação, sob a responsabilidade do empresário José Joaquim Francisco Fernandes, que lhe imprimiu certa dinâmica.

Porém, a grande transformação do café Alentejano, para a época, aconteceu no inicio de 1955, quando um outro empresário, João Relvas, jovem em relação ao carismático mas veterano José Fernandes, lhe concedeu uma feição modernista.

Introduziu, como novidade em Portalegre, uma máquina de café “cimbalino”, renovou a antiga frasqueira e o serviço de pastelaria, ofereceu música de dança, ao vivo, com a orquestra local “Ferrugem”, nas quartas-feiras, recuperou o restaurante, entretanto quase perdido, instalou um bar autónomo junto ao bilhar e um serviço integrado de conveniência, com disponibilidade de selos e postais, tabacaria e posto de venda de jornais, revistas e livros. Além do posto telefónico público, João Relvas aceitava correspondência de última hora, em cooperação com os CTT.

Com a saída do empresário para África, nos anos 60, o café sofreu uma certa crise, tendo então um genro do antigo concessionário Fernandes assegurado a sua gestão.

A frequência do café Alentejano foi bastante diversificada. O seu vasto salão, longitudinal, teve duas diferentes “classes” de clientes: uma rica, culta e também fútil, espraiando-se pela ala esquerda (em relação a quem entra), outra modesta, pobre, o operariado e o funcionalismo, instalando-se à direita.

Em vez de albergar tertúlias intelectuais foi sede de alguma prática de escárnio e maldizer (à esquerda) e de discussão sobre futebol ou política (à direita)…

No entanto, deve acrescentar-se que era (com a Leitaria Chic quase em frente) local frequentado por professores, industriais e agrários, também por estudantes, em certas épocas.

O próprio José Régio, segundo testemunho do seu amigo David Mourão-Ferreira, ali se deslocava por vezes para saborear os afamados bifes do restaurante.

O café Alentejano é hoje titular de um raro mérito, o de ser o único em Portalegre (e não só!) a manter no essencial a traça geral que o celebrizou nos meados do passado século.

Que se mantenha por longos anos. De preferência bons…

 António Martinó de Azevedo Coutinho


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