Hoje fui tomar a “bica” ao Café Alentejano em Portalegre. O
café estava quase cheio, não sei se por ser princípio de Outono, ou se por
ainda cheirar a Verão.
Das últimas vezes que por aqui estive (no princípio de
Primavera) o aspecto era desolador, quase não havia ninguém. Hoje parece ter
voltado ao seu natural, bem composto de pessoas de idades e condições variadas.
Ouve-se o brua das pessoas que falam sem estridências. É de assinalar que não
há televisão.
A estrutura do café mantém-se, mas está cada vez mais
degradada. É penas que os candidatos a autarcas que neste momento fazem um
ruído ensurdecedor por toda a cidade apregoando as suas futuras obras não se
lembrem deste café. A conservação deste espaço, de acordo com a traça original
devia ser também uma das suas prioridades.
Se não se lhe acudir rapidamente, tudo isto vai desaparecer
dando lugar a uma qualquer cadeia de fast food.
(1)
O café Alentejano teve a sua inauguração em Maio
de 1936. Foi instalado no piso inferior do largo terraço de um antigo solar
portalegrense, ao tempo propriedade do abastado lavrador (agrário) José Elias
Martins. A casa possui um conjunto de janelas, uma das quais é considerada
pelos especialistas como das mais belas peças manuelinas nacionais, ali
implantada quando era residência de D. Nuno de Sousa, por voltas do ano de
1538. O solar passaria ainda pela posse dos condes de Vila Real.
O traço original do novo café foi da
responsabilidade do conceituado pintor portalegrense Benvindo Ceia, ainda que
tivesse sofrido algumas alterações. O seu mobiliário, ainda hoje existente,
revela um estilo da época que resistiu a todas as modernidades.
Localizado no topo Sul da Rua “Direita”, perto de
vários estabelecimentos de ensino, de bancos e também da Câmara Municipal, o
café ganhou facilmente considerável afluência. Dispunha de uma pequena sala
autónoma para refeições ou petiscos, bilhar, oferecendo ainda um compartimento
reservado para jogos de salão, cartas, dominó, etc.
Em Março de 1942, reabriu após um curto
encerramento para obras de renovação, sob a responsabilidade do empresário José
Joaquim Francisco Fernandes, que lhe imprimiu certa dinâmica.
Porém, a grande transformação do café Alentejano,
para a época, aconteceu no inicio de 1955, quando um outro empresário, João
Relvas, jovem em relação ao carismático mas veterano José Fernandes, lhe
concedeu uma feição modernista.
Introduziu, como novidade em Portalegre, uma máquina
de café “cimbalino”, renovou a antiga frasqueira e o serviço de pastelaria,
ofereceu música de dança, ao vivo, com a orquestra local “Ferrugem”, nas
quartas-feiras, recuperou o restaurante, entretanto quase perdido, instalou um
bar autónomo junto ao bilhar e um serviço integrado de conveniência, com
disponibilidade de selos e postais, tabacaria e posto de venda de jornais,
revistas e livros. Além do posto telefónico público, João Relvas aceitava
correspondência de última hora, em cooperação com os CTT.
Com a saída do empresário para África, nos anos
60, o café sofreu uma certa crise, tendo então um genro do antigo
concessionário Fernandes assegurado a sua gestão.
A frequência do café Alentejano foi bastante
diversificada. O seu vasto salão, longitudinal, teve duas diferentes “classes”
de clientes: uma rica, culta e também fútil, espraiando-se pela ala esquerda
(em relação a quem entra), outra modesta, pobre, o operariado e o
funcionalismo, instalando-se à direita.
Em vez de albergar tertúlias intelectuais foi
sede de alguma prática de escárnio e maldizer (à esquerda) e de discussão sobre
futebol ou política (à direita)…
No entanto, deve acrescentar-se que era (com a
Leitaria Chic quase em frente) local frequentado por professores, industriais e
agrários, também por estudantes, em certas épocas.
O próprio José Régio, segundo testemunho do seu
amigo David Mourão-Ferreira, ali se deslocava por vezes para saborear os
afamados bifes do restaurante.
O café Alentejano é hoje titular de um raro
mérito, o de ser o único em Portalegre (e não só!) a manter no essencial a
traça geral que o celebrizou nos meados do passado século.
Que se mantenha por longos anos. De preferência
bons…
António Martinó de Azevedo Coutinho
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